O suicídio é uma das principais causas de morte no mundo, mas no Brasil ainda é tratado como tabu. Uma pesquisa inédita desenvolvida pelo Observatório de Suicídio e Raça (Obsur), vinculado ao curso de Psicologia e ao Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da UFRN (CCHLA/UFRN), lança luz sobre um aspecto ainda pouco debatido: a relação entre suicídio e raça.
Coordenado pela professora Ana Karina Azevedo, o grupo vem mapeando o fenômeno em diferentes regiões do país. Os primeiros resultados já revelam uma realidade alarmante no Nordeste: 82,7% dos suicídios registrados entre 2019 e 2022 ocorreram entre pessoas negras.
“Desenvolvemos estudos epidemiológicos sobre o suicídio no Brasil e raça, dados desconhecidos e pouco discutidos no Brasil, mas que demandam urgente reflexão”, destacou a coordenadora, em fala para o portal da UFRN.
Dados inéditos e preocupantes
O levantamento foi publicado no artigo Compreendendo o suicídio na população negra nordestina, na Revista Mosaico. A pesquisa utilizou registros do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM/DATASUS) e analisou os óbitos por suicídio em toda a região Nordeste no período de 2019 a 2022.
Os resultados confirmam a vulnerabilidade racializada do fenômeno e revelam disparidades ainda mais graves em alguns estados. Em Alagoas, por exemplo, 94,5% dos casos registrados foram de pessoas negras; na Bahia, o índice chegou a 86,2%; no Ceará, 83,7%; em Sergipe, 88,8%; e no Rio Grande do Norte, 76,2%.
O estudo também aponta que a maioria das mortes ocorre entre homens negros adultos (30 a 59 anos), que representam 84,2% dos casos nessa faixa etária.
Entre adolescentes, os números também preocupam: 82,2% dos suicídios são de jovens negros. Isso significa que o risco de um adolescente negro cometer suicídio é 4,6 vezes maior do que o de um branco.
Racismo estrutural e sofrimento invisibilizado
Pesquisas anteriores já indicavam que o suicídio crescia entre jovens negros no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde (2018), de 2012 a 2016, a proporção de suicídios entre pessoas negras subiu de 53,3% para 55,4%. Porém, o trabalho do Obsur aprofunda esse recorte regional, revelando uma realidade ainda mais dramática no Nordeste.
De acordo com os autores, o racismo estrutural, a negação de pertencimento social, a violência e o isolamento aparecem como fatores centrais na experiência da população negra, configurando riscos adicionais à saúde mental.
Além de contribuir para o debate científico, o estudo tem como objetivo fornecer subsídios para a formulação de políticas públicas específicas de saúde mental voltadas à população negra.
Fonte:saibamais.jor.br